Em nome da qualidade



A tecnologia digital não deve dispensar cuidados com luz, pose e composição

Na convenção de Alasul, que ocorreu em Porto Alegre, meu filho Joel salientou o que já vínhamos observando nos últimos tempos. A tecnologia digital aportou com tanto ímpeto à feira e tomou tanto espaço na mídia, que ofuscou valores e conceitos até hoje reconhecidos como fundamentais para obtenção de boas fotografias. No último dia, quando já estávamos recolhendo o material exposto no estande, ele comentou que, durante os três dias, havíamos respondido à inúmeras perguntas sobre técnicas, equipamento digital e nenhuma sobre como melhorar a iluminação ou como incrementar a composição nas fotografias. Isso me trouxe à mente um desabafo de um fotógrafo norte-americano que, durante uma demonstração da tecnologia digital, sentiu-se sufocado com tanta informação sobre a nova linguagem e manifestou sua angústia com a seguinte expressão: "Uma fotografia mal iluminada, mal posada e mal composta é um desastre, independente da tecnologia usada, analógica ou digital".

Custo Zero - É exatamente esse enfoque excessivo na nova tecnologia que influirá na baixa qualidade das fotografias que, daqui em diante, serão produzidas em quantidades assustadoras. Não podemos, por isso, ignorar a tendência que esse novo "brinquedo" trará para o mercado nas mãos dos novos e velhos profissionais da fotografia. No entanto, devo dizer que também sucumbi à fotografia digital, pois ela finalmente colocou nas mãos dos profissionais uma ferramenta de venda até então impossível: a emoção da visualização imediata. É, sem dúvida, o seu ponto forte. E, no desejo de incrementar as vendas, tenho fotografado muito além da quantidade necessária de fotogramas para o trabalho em questão. E a quantidade, aliada ao aparente custo zero (câmera sem negativo), tem propiciado um relaxamento na busca da qualidade. Nessa situação o cliente não pode ser considerado como "juiz" entre as boas fotos e as ruins. O fator emoção faz com que sejam avaliadas como boas todas aquelas cuja expressão lhe agradam. E nessas boas, estão muitas com baixa qualidade de luz, pose e composição.

Fazendo a diferença - Por isso, gostaria de ressaltar, antes de mais nada, que devemos ficar atentos em primeiro lugar aos três elementos da iluminação que fazem a diferença entre uma fotografia comum e uma que pode ser considerada excepcional: o tipo, a direção e a potência da luz. Como tipo de luz entende-se: contrastada ou suave. A direção da luz define o posicionamento das fontes de luz, originando nomes conhecidos como luz ampla, luz curta, contraluz e silhueta. E a potência é a quantidade de luz usada para a exposição de um fotograma, o que origina o contraste de uma fotografia. Em segundo lugar, devemos buscar, com muito empenho as linhas de composição como a triangular diaginal linha do "S" e linha do "C". Por último, e não menos importante devemos favorecer o cliente para que possa de maneira natural e adequada a proposta da imagem que desejamos criar. E é com esta palavra "criar" que desejamos concluir esta reflexão. Criar é o que realmente devemos fazer para que cada fotografia retrate o assunto da melhor forma possível. Isso portanto, nos coloca na situação de criadores de obras particulares e especiais para os nossos clientes, e um marco na história da fotografia. A tecnologia digital é e terá sido meramente uma ferramenta, um instrumento de criação.



Créditos: Revista Fhox
Paulo Reichert é Professor da Oficina de Photographia, em Novo Hamburgo, RS.