Todo direito implica em obrigações



Regras fundamentais para parcerias duradouras nos negócios ditam uma relação de reciprocidade. Uma troca em que temos direitos sim, mas para validá-los é necessário cumprir obrigações

Quando ingressei na Faculdade de Direito, uma frase me marcou pelo resto da vida: "O meu direito vai até onde começa o direito do outro". Aliás, no nosso País essa premissa tem validade quase nula. Não sei se por razões culturais ou por falta de educação mesmo. O pior é que a negligência de certos "princípios básicos" do convívio civilizado acaba gerando enormes conflitos, alguns com final na porta da delegacia ou no fórum. Quando não há a consciência da necessidade de se respeitar regras, de se adotar padrões éticos e, principalmente, quando um bando de gente não quer saber que o seu direito tem limites e implica em obrigações, o convívio torna-se insuportável. Estabelece-se um clima de permanente desentendimento, válido tanto para empresas como para pessoas. Talvez por isso, o Brasil seja um dos países que mais tenha advogados no mundo, justamente para resolver esses casos juridicamente. Essa falta de consciência dos direitos e obrigações de cada um reflete-se também na qualidade da prestação de serviços. Na média, ela é muito ruim e inverte valores. Quer um exemplo: não consigo entender por que no Brasil quem diz "por favor" e "obrigado" são sempre os clientes. Em outros países é exatamente o contrário.

Respeito aos valores - Quem sabe seja essa causa dos conflitos entre parceiros de negócios que, na essência, mantêm uma relação de compra e venda. Levado para a esfera das empresas públicas, aí então a coisa fica muito séria. Em geral, a postura do funcionário público é imaginar que presta um grande favor quando atende um contribuinte. Na realidade, essa é a obrigação, inclusive, de forma educada e com boa vontade. Agem assim pela sensação de estabilidade, pois o serviço público não tem concorrência e, portanto, não é possível trocá-lo por outro que trate melhor seus clientes. Sim, o contribuinte é também um cliente, pois paga impostos ao Estado e mais taxas adicionais para cada serviço solicitado. O inaceitável, entretanto, é se deparar com essa mesma postura no comércio entre alguns vendedores de lojas. O descaso com que os consumidores são tratados me assusta. Cumprimentam ao chegar e sequer obtém resposta. Fazem compras, pagam, dizem obrigado e o vendedor sequer esboça um sorriso de agradecimento. Eu pergunto: você teria vontade de voltar numa loja assim? Com isso, muitas empresas se obrigam a investir em treinamento para ensinar o óbvio ao seu quadro de vendas - cumprimentar, transmitir boa vontade, agradecer e sorrir.

A exceção vira regra - A falta de pontualidade parece ser marca registrada do brasileiro. Para mim trata-se de uma atitude egoísta, de quem não tem o mínimo de respeito pela agenda do outro. Acho o cúmulo alguém dizer que chegar atrasado é até charme. Noutros países é vergonha total! Falta de educação imperdoável. Pergunto-me porque disseminamos em nossa cultura como sendo normal desrespeitar o patrimônio público, não estar nem aí pelos direitos do próximo e a ausência de padrões éticos de comportamento. A prioridade pelo "eu" parece justificar tudo. Como a minha abordagem nesta coluna é sempre pautada pelos negócios do ramo, faço uma outra pergunta pertinente: será que na vida empresarial essas coisas chamadas de educação, ética, respeito, obrigações e direitos também não se refletem no sucesso ou insucesso do empreendimento? Será que aquele ditado que diz "devo, não nego e pago quando puder", virou norma padrão? A pergunta fica no ar, pois é curioso ver gente capaz de se apresentar e ostentar um falso sucesso sentada numa montanha de dívidas - e ainda por cima, achando que não precisa e tampouco deveria pagá-las.



Créditos: Revista Fhox
Sadawo Oba é Diretor de Relações Externas da Fujifilm do Brasil